A cerca de uma hora do Porto, há um território de 328 km² reconhecido pela UNESCO como Geoparque Mundial, onde uma cascata de mais de 70 metros de altura cai entre rochas graníticas, pedras “dão à luz” outras pedras e uma ponte suspensa atravessa uma das gargantas mais selvagens da Europa. Isto é o Arouca Geopark.
O que é o Arouca Geopark?
O Arouca Geopark corresponde exatamente aos limites do concelho de Arouca, no distrito de Aveiro, e é Geoparque Mundial da UNESCO desde 2009 — o segundo a ser reconhecido em Portugal.
Ao longo dos seus 328 km², foram inventariados 41 geossítios, que documentam centenas de milhões de anos de história geológica — de xistos com mais de 500 milhões de anos a fósseis de trilobites gigantes, passando pelos granitos que dão origem às Pedras Parideiras. Quatro destes locais têm mesmo importância internacional reconhecida.
Frecha da Mizarela: uma das cascatas mais altas de Portugal

Com mais de 70 metros de altura, a Frecha da Mizarela é o ponto onde o rio Caima se projeta entre rochas graníticas, num espetáculo que pode ser contemplado a partir do Miradouro da Frecha da Mizarela, cerca de 1 km antes da Praia Fluvial de Albergaria da Serra.
A origem da queda de água está ligada à erosão diferencial entre o granito e o xisto (mais brando, que cedeu à força da água) e ao sistema de falhas que atravessa toda a Serra da Freita. À sua volta, sobrevive ainda vegetação primitiva da serra — rododendro, carvalho-alvarinho, carvalho-negral — e a zona serve de refúgio a aves como as águias cobreiras.
Pedras Parideiras: as pedras que “dão à luz” outras pedras

Na aldeia da Castanheira, também na Serra da Freita, está um dos fenómenos geológicos mais raros do mundo: o “granito nodular da Castanheira”, com idades estimadas entre 320 e 310 milhões de anos. A ação do frio no inverno e do calor no verão liberta pequenos nódulos minerais da rocha-mãe, que caem e deixam para trás cavidades perfeitas — criando a ilusão de que a pedra deu à luz outra pedra.
O fenómeno já era descrito no século XVIII, e gerou lendas populares de fertilidade, embora hoje seja proibido retirar qualquer pedra do local. Para perceber a ciência por trás do fenómeno, vale a pena visitar a Casa das Pedras Parideiras – Centro de Interpretação, aberta desde 2012, com exposição exterior e um filme em 3D sobre o tema.
Os trilhos: Passadiços do Paiva e Ponte 516

Se há uma coisa que não pode faltar numa visita ao Arouca Geopark são os Passadiços do Paiva: uma estrutura de madeira com 8.700 metros de percurso, construída ao longo da margem esquerda do rio Paiva — um dos rios mais selvagens da Europa —, que liga cinco geossítios diferentes ao longo do caminho, entre cascatas e rápidos.
Numa das extremidades dos Passadiços encontra-se a Ponte 516 Arouca, com 516 metros de comprimento e 175 metros de altura sobre o rio Paiva. Quando abriu, em maio de 2021, foi anunciada como a maior ponte pedonal suspensa do mundo; hoje está entre as mais longas do género que existem.
A travessia, sustentada por apenas dois cabos principais, oferece vistas sobre a Garganta do Paiva e a Cascata das Aguieiras — e não é recomendada a quem sofra de vertigens. O bilhete da ponte inclui também a visita aos Passadiços, desde que feita no mesmo dia.
Trilobites gigantes: o Museu das Trilobites
Para quem gosta de paleontologia, o Centro de Interpretação Geológica de Canelas, também conhecido como Museu das Trilobites, reúne uma das mais importantes coleções de fósseis do mundo. Aqui, foram encontrados exemplares de trilobites gigantes, com cerca de 465 milhões de anos — entre os maiores alguma vez registados no planeta, com um dos espécimes a atingir os 90 centímetros de comprimento.
Em 2022, o geossítio foi distinguido pela União Internacional de Ciências Geológicas como um dos 100 locais mais importantes do mundo pela sua relevância científica.
Onde comer?
A gastronomia de Arouca gira à volta da carne da raça bovina arouquesa, criada ao ar livre nas encostas do Maciço da Gralheira, sem recurso a rações. O prato mais icónico é a Posta Arouquesa, vitela grelhada lentamente na brasa e temperada apenas com sal, mas há também o Bife à Alvarenga, o cabrito assado e o cozido à portuguesa.
Para sobremesa, a doçaria conventual de Arouca inclui castanhas doces, barrigas de freira, roscas e charutos de amêndoa — e até um doce batizado, precisamente, de “pedras parideiras”. Entre as referências locais estão o Restaurante Alto-da-Estrada, à entrada da vila de Arouca desde 1981, e a Casa dos Bifes Caetano, junto às margens do Paiva em Alvarenga, a servir a região desde 1954.
Como chegar a partir do Porto
De carro, a viagem demora cerca de uma hora: o caminho mais direto é apanhar a A32 em direção a Vale de Cambra/Arouca, seguindo depois pelas estradas nacionais e municipais até à Serra da Freita, com direito a paisagem de montanha na reta final. Não há transportes públicos que sirvam bem a zona, por isso o carro é mesmo a melhor opção.
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